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Facebook fecha acordo com agências de checagem brasileiras para reduzir poder de fogo das fake news antes da eleição

Uma vacina contra a gripe causa “surto mortal” nos Estados Unidos. A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia pediu a prisão imediata da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). Marina Silva assinou carta em defesa do casamento gay. As afirmações acima, todas falsas, registraram, somadas, quase 300 000 in­terações no Facebook antes de ser esclarecidas por agências de checagem de fatos entre os dias 15 e 22 de maio. As postagens com os desmentidos fazem parte de um acordo anunciado no dia 10, entre a empresa de Mark Zuckerberg e as agências brasileiras Lupa e Aos Fatos, para reduzir o alcance das fake news na rede social. Na quinta-feira 24, o Facebook comunicou que a agência France-­Presse se juntou ao grupo.
Agora, ao detectarem uma notícia falsa, as agências devem reportar o link ao Facebook, cujo algoritmo está programado para reduzir a exposição da mentira na linha do tempo de seus usuários — mas não excluí-la da rede. A postagem também não poderá mais ser “impulsionada” — nome dado ao ato de pagar ao Facebook para aumentar o alcance de uma informação. Em seguida, um artigo que alerta para o conteúdo falso é produzido pela mesma agência e compartilhado nas redes sociais. Isso permite que, toda vez que um usuário postar o link falso, ele receba um aviso destacando o artigo checado. Se o mesmo indivíduo quiser ignorar esse aviso e espalhar a mentira, poderá mandar bala. Nada o impedirá. Não se trata, portanto, de uma censura, como entendem alguns, nem de uma reedição do “tribunal do povo”, criado por Hitler para condenar inocentes e estabelecer a Verdade.
Ainda assim, é um assunto delicado. O Facebook não entrou deliberadamente no terreno pantanoso que é envolver-se na divulgação daquilo que circula em sua plataforma. Zuckerberg viu-se forçado a tomar medidas anti-­fake news para sair da encruzilhada em que entrou depois que dados de 87 milhões dos usuários de sua rede foram usados pela consultoria Cambridge Analytica para produzir notícias falsas a serviço de campanhas como a de Donald Trump e a do Brexit. Ao testemunhar no Parlamento Europeu, em Bruxelas, na terça-feira 22, Zuckerberg repetiu o que diz desde que a manipulação eleitoral foi descoberta: que o Facebook está fazendo “investimentos importantes” para evitar que isso se repita e garantir a integridade das eleições no Brasil e na Índia, em 2018 e 2019.
Uma semana depois do anúncio no Brasil, iniciativa semelhante foi divulgada na Argentina. No México e na Colômbia, a parceria existe desde o fim de março. Nos Estados Unidos, está em vigor desde dezembro de 2016, e hoje a tutela está a cargo de cinco agências: Weekly Standard, Associated Press, FactCheck.org, Politifact e Snopes. Segundo o Facebook, a prática cortou em até 80% a distribuição orgânica de conteúdos falsos. França, Alemanha, Itália e Holanda também adotaram o sistema. No Brasil, as agências Lupa e Aos Fatos foram escolhidas por ser auditadas pelo instituto americano Poynter, que avalia a transparência e o apartidarismo de seus colaboradores.
A chancela internacional às agências não as blindou de ataques de grupos desinteressados no combate às notícias falsas. O Movimento Brasil Livre (MBL), célebre por publicar conteúdo falso e perseguir jornalistas que fazem reportagens das quais o grupo discorda, divulgou postagens em que afirma que os profissionais das agências contratadas teriam viés político. Não por acaso, o MBL é um dos sites que podem ter seu alcance reduzido com o trabalho da checagem. Para o diretor de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marco Aurelio Ruediger, a medida ajuda, mas não é suficiente: “Precisamos encontrar meios de incluir também a sociedade na averiguação do conteúdo”.