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Lawson Craddock: a incrível história do último colocado no Tour de France

Quem acompanhou o Tour de France 2018 pela televisão provavelmente passou batido do conto épico estrelado pelo ciclista norte-americano Lawson Craddock, de 26 anos. Enquanto as câmeras miravam os britânicos Chris Froome e Geraint Thomas e o holandês Tom Dumoulin, que brigaram até o final pelas primeiras colocações na classificação geral, Lawson era quem mais sofria para conseguir terminar cada uma das 21 etapas da competição mais importante do ciclismo mundial.
E se Thomas venceu o primeiro Tour de France da carreira, foi Lawson quem mais deu o sangue. Literalmente.
Logo nos primeiros quilômetros – dos mais de 3.300 –, esse ciclista natural do Texas foi atingido por uma garrafa que outro atleta deixou cair na estrada e tomou um tombo feio. Fraturou a escápula e abriu um corte profundo acima do olho esquerdo. Não foi o único a se machucar, mas certamente uma das grandes perdas da edição 2018 da prova.
Lawson havia trabalhado duro durante a temporada 2017 para poder estar entre os 8 ciclistas que representariam a equipe norte-americana EF Education First no Tour de France deste ano. E apesar de estar ali cumprindo um papel estratégico – sendo gregário do colombiano Rigoberto Uran, o principal ciclista do time –, ele fez questão de sobreviver até a última etapa.
Chegar pedalando a Paris é uma questão de honra para qualquer ciclista que disputa o Tour. Então, depois que os médicos concluíram que mesmo com as dores ele poderia voltar à bicicleta sem risco de agravar ainda mais sua situação, Lawson decidiu transformar sua garra em ajuda.

“Um osso quebrado e alguns pontos não é como eu queria começar o Tour. Mas este texano aqui vai lutar o máximo que puder para continuar”, tuitou, já exibindo os pontos no supercílio.
Em vez de disputar pódios ou camisas coloridas que definem os vencedores do Tour, ele passou a duelar contra o tempo de corte. Para cada etapa concluída com êxito, Lawson prometeu doar US$ 100 para a reconstrução do Velódromo Alkek, em Houston, o lugar onde ele se tornou um ciclista profissional e que, em setembro de 2017, fora devastado por um furacão. “Há jovens e promissores ciclistas que estão sem treinar por conta disso”, disse.
Sua atitude viralizou. No dia seguinte, o CEO da T-Mobile, John Legere, afirmou que doaria US$ 200 para cada etapa que Lawson terminasse. Legere é um executivo norte-americano amante dos esportes. Foi corredor competitivo na época de faculdade e, em 2004, completou a Maratona de Boston.
Até o ex-ciclista norte-americano Lance Armstrong – que chegou a vencer o Tour de France por sete vezes, mas teve todos os títulos cassados posteriormente por assumir que competiu dopado – se sensibilizou com a causa de Lawson. A Mellow Johnny’s, a loja de bicicletas que Lance tem em Austin, Texas, produziu camisetas em homenagem a Lawson, prometendo reverter todo o dinheiro arrecadado com as vendas para a reconstrução do velódromo. As blusas traziam o numeral “13”, que pertenceu a Lawson no Tour de France 2018, só que de ponta cabeça.
O próprio Lawson chegou a se questionar no começo da competição se o “13” lhe traria sorte ou azar. Mas o fato é que sua campanha não poderia ter sido mais bem-sucedida. Logo no primeiro dia, sua página de financiamento coletivo atingiu a marca de U$S 21 mil. “Nos dias seguintes ao acidente, eu ainda sentia fortes dores”, disse Lawson. “Nós, ciclistas, passamos pelas piores estradas que você pode imaginar, incluindo mais de 20 km de paralelepípedos durante a 9ª etapa do Tour.”
Além das cicatrizes, o norte-americano terminou a competição tendo arrecadado mais de US$ 250 mil – mais que o dobro da meta estipulada. E como plano derradeiro, a equipe EF Education First decidiu leiloar a bike usada por ele no Tour. Faltando uma semana para o término dos lances, já tinham conseguido outros US$ 11 mil para ajudar na reconstrução do velódromo.
Lawson foi o último na classificação geral do Tour de France 2018. Mas em um ano em que o percurso foi particularmente desafiador e que houve recorde de desistências, o texano ainda vive dias de herói: mesmo que não se possa dizer que os “últimos serão os primeiros”, ele mostrou que é possível ir muito além.